13 de mai. de 2010

Casal de Ipatinga teria dado R$ 100 por filha de lavradora

Sustentada por medicamentos neurológicos e mergulhada em dificuldades financeiras, a lavradora Marinalva Brito Gonçalves, 38, recorda com saudades da filha recém-nascida que ela entregou por cem reais a um casal da cidade de Ipatinga, há pouco mais de dois anos. O dinheiro, de acordo com Marinalva, teria sido repassado pela vereadora Maria Elizabete de Abreu Rosa, a Bete, do PRP - Partido Republicano Progressista (BA), a mando do casal ipatinguense, para ela “tomar um cafezinho”.

Em entrevista para o jornal “Notícias de Ipiaú” – cidade com cerca de 44 mil habitantes no sul da Bahia -, na última segunda-feira (10), a lavradora Marinalva relatou que é mãe de dois filhos menores de idade, e deu à luz ao terceiro em 3 de abril de 2008, no Hospital São Vicente (Santa Casa de Misericórdia), em Vitória da Conquista-BA. A menina foi chamada por ela de Gabriele, mas logo ganhou novo nome e novos pais. “Só vi minha filha no dia em que nasceu, aí entreguei para a vereadora Bete e ela entregou ao casal de Ipatinga. Nem sei onde fica esse lugar, nunca mais tive contato com a menina”, relatou a lavradora.Marinalva ainda disse que teria dado a filha porque não tinha condições de criar a criança.

A denúncia feita pela lavradora está sendo investigada juntamente com outras três acusações contra a vereadora Bete, que responde por aliciamento de mulheres grávidas e intermediação de crianças para adoção ilegal. Quem acompanha as denúncias é o promotor de Justiça Márcio de Oliveira Neves, do Ministério Público Estadual da Bahia. Ele afirma que a vereadora abordava gestantes e lhes oferecia dinheiro por elas entregarem seus filhos após o nascimento. “As crianças eram, então, direcionadas a casais interessados sem que fossem observados os ditames legais que regulam a adoção”, disse o promotor.

Câmara de Encruzilhada
Conforme informou a Câmara de Vereadores de Encruzilhada, município de 22 mil habitantes, no centro-sul baiano, desde a semana passada a vereadora Bete não apareceu mais em seu gabinete. A reportagem do jornal VALE DO AÇO também tentou contato direto com a vereadora. Contudo, deparou-se apenas com a mensagem da operadora do celular dizendo que “o número chamado encontra-se indisponível ou fora da área de cobertura”. A vereadora teria confessado participação em pelo menos três casos de aliciamento durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura desaparecimento de crianças e adolescentes, em Brasília. Audiência pública da CPI está marcada para o dia 26 deste mês.

Informações vagas
A Vara da Família do Fórum de Ipatinga não informou se o processo foi encaminhado para a comarca e está em andamento no local (na busca pelos supostos pais adotivos da criança). De qualquer forma, garantiu que se isso estiver acontecendo, o processo corre em segredo de Justiça.

O Conselho Tutelar de Ipatinga desconhece a denúncia, mas opina que só será possível encontrar a criança se o Ministério Público tiver em mãos - ou descobrir - o nome dos pais ‘adotivos’ do bebê. A situação não é inédita. “Uma mãe da cidade de Açucena também deu um filho para um casal supostamente daqui da região, e depois se arrependeu. Desde que ela levou o caso para a Justiça, há cerca de um ano, ela procura por esses pais. Entretanto, é muito difícil reencontrar estas crianças, porque as pessoas costumam registrá-las como nascidas na zona rural e colocar outro nome”, informa a repartição, alertando, no entanto, que esse tipo de adoção é “imoral, ilegal e criminoso”.

Para que se tenha uma ideia ainda mais clara sobre a alta incidência do problema, nesta quarta-feira (12) uma representante do Conselho Tutelar de Ipatinga foi chamada ao Hospital Márcio Cunha, para intervir: sem qualquer procedimento legal, uma mãe pretendia “dar” sua filha recém-nascida, de quatro quilos, para uma mulher com melhores condições financeiras, que já havia preparado tudo para receber a criança.

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