Pelo menos quinze locais de votação na eleição extemporânea para prefeito em Ipatinga, no domingo, contaram com a presença de pesquisadores dedicados a um levantamento acadêmico. Com planilhas nas mãos, os pesquisadores perguntavam a quem saía dos locais de votação a idade, escolaridade, preferência partidária, faixa salarial, horário em que votou, e anotava o sexo do entrevistado. As informações constam do banco de dados do TSE, com base em dados do censo 2000 do IBGE, ou seja, com uma década de defasagem.
A pesquisa gerou desconfiança dos fiscais de uma das coligações envolvidas na disputa, que imediatamente representaram na Justiça Eleitoral contra o trabalho destinado a abastecer um projeto de monografia do estudante do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense, em Niterói - RJ, o ipatinguense Júlio César Sanches Silva.
O universitário explica que a Unidade Primária de Amostragem (UPA) visava apurar variáveis como sexo, idade, escolaridade, religião, renda, preferências e até horário de votação dos eleitores, em um trabalho quantitativo do eleitorado de Ipatinga. “Então, houve o agendamento da eleição extemporânea e decidi fazer o trabalho na cidade onde nasci e onde pretendo morar quando me formar. Mas não contava com as dificuldades”, reclama.
O que mais gerou polêmica entre os apoiadores das candidaturas foi a quinta pergunta, se o eleitor tinha alguma preferência partidária. Como os eleitores eram entrevistados após o voto, o universitário entende que isso não interferia no processo de votação.
Júlio César conta que não chegou a ser notificado pela Justiça Eleitoral, mas na medida em que descobriu que havia representação contra os pesquisadores, procurou o juiz eleitoral Evaldo Elias Penna Gavazza, a fim de explicar os propósitos do levantamento. “O juiz compreendeu, mas diante da celeuma criada orientou que a pesquisa fosse encerrada, e prontamente atendemos ao pedido. A proposta era que o levantamento iniciado às 8h fosse até as 17h. Teve que ser encerrado por volta das 15h”, frisou.
Apelo
O estudante Júlio César Sanches Silva admite que o clima de acirramento da disputa contribuiu para a desconfiança do trabalho que era feito. Júlio César também explica que o trabalho acadêmico não precisa ser registrado, e disse esperar que as pessoas entendam melhor a importância do trabalho acadêmico, que demanda pesquisas de campo. “Domingo, sem dúvida, foi atropelado o meu direito de universitário”, reclamou.
Apesar desse imprevisto, 957 pessoas foram ouvidas na pesquisa acadêmica. O objetivo do trabalho, no entanto, era pesquisar 1.200 eleitores. Antes da elaboração da monografia, o estudante quer desenvolver outra pesquisa, qualitativa, para saber quais demandas a população considera prioritárias. No seu entendimento, será uma forma de contribuir no sentido da definição de políticas públicas que levem a uma melhor qualidade de vida.
Entre os dados já tabulados, Julio César mostra um gráfico segundo o qual 59,8% dos eleitores, depois de votar, responderam que não têm preferência partidária, embora tenham optado por um dos três candidatos. Outros 40,2% confirmaram que se fundamentam nesse quesito.
Valorização
O curso de Ciências Sociais possui três cadeiras: Antropologia, Sociologia e Ciências Políticas. Ao longo do curso, o estudante escolhe o que quer. O ipatinguense Júlio César Sanches Silva pretende ter uma publicação acadêmica em cada cadeira, por meio da bolsa da Conselho Nacional de Pesquisa da Qualidade (CNPQ), antes de voltar a Ipatinga. Apesar da distância, o estudante acompanha a vida política da cidade e fez questão de vir no dia da eleição.
“Acompanhei todas as pesquisas de intenção de voto publicada nos jornais da região. Houve acertos louváveis. É preciso valorizar a pesquisa científica, inclusive a produção acadêmica que, mais do que nunca, deve ser apartidária, como a minha. Agradeço aos eleitores que muito contribuíram, mas lamento a intransigência dos apoiadores de uma das coligações”, conclui Júlio César.
Repórter : Alex Ferreira
FONTE: Diário do Aço
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